quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O direito a indignar-se.

(Esse texto foi escrito e engavetado, mas hoje senti que se ele não tivesse nascido há alguns meses, nasceria essa manhã.)

Sinto-me no direito de ficar indignada.
Sei que meus medos, meu silêncio arredio, minha dissimulação ensaiada, até essa minha insegurança estranha, doída, já causaram dor e ainda hão de causar.
Mas não falto com respeito, não traio lealdade, cumplicidade.
Sei ser companheira.
Se minhas frustrações, quando se deparam com a vida, machucam e fazem doer, não estou à parte dessa dor. Ela é minha as well, acredites. Não acho também que isso justifique o fato de fazer mal a quem está a minha volta sem, um dia, parar pra entender as coisas e realmente mudá-las.

O que andou me cutucando hoje foi uma consciência leve (até leve demais pro meu histórico sórdido), uma sensação muito boa de ter cuidado de quem é querido por mim, de quem me quer bem em troca.
Quando assim, te prepares, uma sensação de direito a indignar-se comeca a aparecer. Sim, sensação de “estou legitimamente autorizada a reclamar!”
Não sei bem de onde ela vem. Mas existe.
E não é boa coisa quando a gente percebe que foi o outro quem sujou a roupa. Ela não deixa de estar, como já estava há tempos, suja.
Quem me lembrou disso hoje foi a Cacá (que seria de mim sem as amigas-irmãs?), com uma frase que só amiga de tantas poderia dizer. E ela tem propriedade: "Eu sei que é foda essa coisa de decepção, quando gostamos de uma pessoa e ela trata a gente assim desse jeito... E você, entao? Nunca vi falando ou fazendo algo grosseiro assim com ninguém. Acho muito injusto. Você é sempre meiga, pra cima, carinhosa com as pessoas".

Como é bom ter alguém pra fazer a gente lembrar dos próprios atos.
Sim, a gente faz coisas boas que às vezes acaba esquecendo.

E essa minha calmaria tem dias contados.
Não, não vou sair por aí virando mesa de bar. Continuo sendo quem a vida me fez.
Agora, se for pra fazer justiça à minha pessoa, comprarei quantas brigas forem necessárias.
Cantar as mágoas todas pra longe pra evitar cara feia, discórdia, confusão, ainda é parte de mim. Mas guardar mágoa eu não guardo mais não. Faz a gente ficar feia.

Tenho gostado tanto de mim. Do meu jeito de amar os amigos, a música, o texto.
Da visceralidade de minha saudade pelos pequenos. Do meu jeito de querer ficar linda e acabar esquecendo de passar a maquiagem (putz!). Do meu jeito de querer saber tudo, ser grande atriz, orgulhar pai e mãe, ler toda a obra de Shakespeare!, e sempre terminar só filosofando mesmo, sentada no boteco.
Tenho gostado muito do meu jeito de esquecer as coisas ruins e guardar lembranças boas de tudo e todo mundo.

Sim, esse alguém que despertou o direito à indignação está desculpado, é claro, apesar de não ter nem pedido desculpas!

Eu preciso ir trabalhar.


Por Anita Petry

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008


"Teatro é ao vivo. Olho no olho, respirando o mesmo ar, sob a mesma temperatura, tendo vivido o mesmo dia na mesma cidade, ator e espectador estabelecem uma relação -real, simbólica, física, esotérica, intelectual, sexual -irrecuperável, irreversível e irreproduzível. Essa é sua força e sua maldição.


É a mais cruel da artes. Acontece ou não a cada apresentação. Em teatro não há segunda chance, bula nem perdão garantido pelas boas intenções. Vale o vivido. Ou não vale nada. Não dá pra deixar na estante e tentar ler depois de uns anos. Não dá pra ver de novo numa sessão da tarde e só então se emocionar. Não dá pra esbarrar com a obra num museu e viver uma epifania."


Aimar Labaki


"Nosso ritual diário de comunhão com o público ainda vai ser percebido como ouro, uma coisa rara e um luxo, pois o nosso teatro é apontado para o futuro, com ambição de que a arte, como o futebol, seja o esporte das multidões."


Zé Celso


O teatro, essa arte estranha e cruel, tomou conta mais uma vez de minha vida. Ou ao menos de meus dias.
Um brinde!

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

...


"Acendeu um cigarro e fumou apenas a metade; o vento encarregou-se de fumar o resto."

E eu tenho mesmo que gostar dessa cara porque ela é a minha cara?
Já ouvi que esse nariz, várias vezes até, sou eu. É, então, talvez, o retrato de minhas vivências: a poesia feia de meus amores imperfeitos.

Lestes tanto e tão pouco sabes, meu bem.

O cheiro de cigarro agarrava-se a seus dedos. E esse cheiro também era ela. Esse cheiro que invade suas narinas redondas, seu nariz largo demais (sem nunca deixar-lhe os dedos).

Sou artista, estrela de minha criação, "uma forma nebulosa feita de luz e sombra" que toma posse do sujo e do belo, que molda e mata. Sou qualquer coisa então no intermédio meu e do outro.

Está ela começando a gostar de suas mãos, dos dedos tortos que herdou da família Cavalheiro e das unhas vermelhas que ela mesma pintou; unhas vermelhas que são como que o transbordar de sua vaidade.

E vejo que tudo que é torto e estranho sou eu também. E gosto de mim mesma quando gosto do frio, quando meu cigarro deixa de ser um prazer fútil e passa a ser, na verdade, um ritual de minha solidão. Um ritual bom.

Ela gosta de si mesma quando objeto de sua própria reflexão.

E lhe dá imenso prazer a verdade de seus sentimentos, ao menos consigo mesma, e bem no fundo de si.
Sua dissimulação, em momentos de bem estar, é quase a prova de sua pureza.

Labirinto da paixão. Ingênua, deixa-se perder.

E joga, afobada, palavras no papel, como se essas, de alguma maneira, tirassem algo de si.

Por favor, leia as cartas que te escrevo.
Elas estão como que a flutuar em torno de nós, em torno da nossa história (história à qual ela se agarrava como que a provar razão pra tamanha loucura).

Minha dissimulação é o medo que tenho de enviá-las; mas aí elas estão, no meu nariz redondo (que é como o prenúncio de meu despeito), no cigarro (que fuma como que a mergulhar no outro de si), dedos tortos de unhas vermelhas (que são como força a saltar-lhe das extremidades).



Por Anita Petry

sábado, 22 de dezembro de 2007

Ouvi sobre uma francesa.


(escrito originalmente em abril de 2007, também sob o cheiro de gasolina e pipoca da cidade maravilhosa)
Ouvi sobre uma francesa. Me lembro que falava espanhol, mas, se não me engano, era francesa. Essa moça conheceu um brasileiro que perambulava pelo seu país, um brasileiro que se apaixonou por ela. E toda sua vida passada (meus tão intransponíveis obstáculos) não passou de lembrança bonita pra enriquecer sua história presente.
Conta-se que ele voltou pro Brasil, mas que seu coração continua
perambulando pelo país da moça, a moça que falava espanhol, mas que, se não me engano, era francesa. A moça pela qual o rapaz se apaixonou.
Isso eh realmente possível, meu deus?!
Conta-se, na verdade, muita coisa, muitas histórias diferentes e nunca, nenhuma, se parece com a minha. Nenhuma me parece possível.
A minha história, a minha sina, creio que seja mesmo preencher alguns espaços vazios, por um tempo determinado, viver paixões fugazes; verdadeiras, mas intermediárias.
E me dói tambémé verdade, unicamente dançar sobre a história das pessoas, levar só um pouco de música, só um pouquinho de cor, pois assim como entro, saio, rodopiando na ponta dos pés pra não deixar marcas, pra não machucar, pra não fazer alarde.

Mas que saco esse meu desejo incessante, infantil e fraco, de que apareça um homem pra me amar loucamente, um homem feito pra cuidar de mulher forte.

Talvez minhas tardes sejam pra sempre azuis, e não hajam assim tantos desejos.

Por Anita Petry

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Uma Pessoa Conquistável




(Esse texto foi escrito dia 16 de Abril enquanto me hospedava na casa da Mila, no Rio, numa suposta visita de apenas uma semana. É claro que a semana acabou virando um mês inteirinho maravilhoso que nos rendeu saudades imensas do que não foi vivido ainda e até planos de moradia definitiva!)

Fui ao supermercado e comprei só o essencial

[pois é verdade: a grana está curta].

Voltei pra casa e esperei os eletricistas instalarem o apartamento

[pois é verdade: onde absolutamente nada funciona, tudo (se deus quiser) entrará na normalidade].

A Mila foi pra faculdade e eu fui cozinhar o jantar. Tomei banho. Fumei um cigarro (que merda. eu sei) e fui a um CyberCafé estabelecer contato com o mundo, embora eu me sinta bem no centro dele.

Resolvi ir ao cinema. É, não tinha nada pra fazer e a Mila não sairia da faculdade até as 10 e 30.

Escolhido o filme, O CHEIRO DO RALO, e escolhido o cinema, a CASA DE CULTURA LAURA ALVIM, tratei de bater pernas pra chegar a tempo. Fácil, fácil.

Sensação de vitória; cheguei uma hora antes da sessão e meus conhecimentos sobre Ipanema não me decepcionaram.

Comprei o ingresso pagando meia entrada graças à bondade (ou ingenuidade) da moça que cedeu porque eu era de fora, apesar de não possuir o comprovante de frequência.

"Aqui no Rio, todo mundo tenta enganar a gente usando carteirinhas que não valem..." A minha, é claro, se encaixava na categoria da falcatrua citada.

Matando o tempo que faltava, caminhei um monte pela beira da praia silenciosa, tomando uma água de coco e... PÁ! Me apaixonei pela cidade.

Pessoas, turistas, varandas.

A cidade me conquistou.

"Como sou conquistável, meu deus!" eu pensava. Foi só eu me distrair que a cidade maravilhosa me beijou.

Não sei se foi só a cidade ou aquela Ipanema noturna.

Acho que foi o supermercado, a Mila na faculdade, o cheiro de alho do jantar, o disco do Caetano na barraca de coco, o calçadão, o cara ao lado falando francês, as varandas à beira-mar... Acho que foi o cinema que eu esperava pequena diante de tudo aquilo ou o medo desse mundo gigante paradoxalmente enredado na minha ânsia de abraçá-lo. Sozinha.


Por Anita Petry

domingo, 25 de novembro de 2007

O Direito a Desconectar-se

A gente muda.
Eu que nunca chorei na frente de ninguém, hoje não vi graça em chorar sozinha.
Era como se as lágrimas não conseguissem mais purgar a dor.
Elas saíam a rodo, como se costuma dizer, saíam e as mãos continuavam tremendo, o coração, sempre, desembestado, ansioso demais, sedento, infantil.
E eu empalidecia ao ver, bem aqui, diante de mim, o retrato do meu medo, a verdade que escondo de mim mesma, malandra, o sofrimento que eu não deixei atracar no meu cais. Eu, forte demais.

Veja a minha poesia, a minha devocao toda, por favor.
A tecnologia não desconecta mais as coisas?!
Eu quero me desconectar!!!

A centenas de quilômetros de distancia, é covardia do acaso me fazer enfrentar um mundo inteiro de “nunca mais.” É covardia do acaso jogar assim na minha cara o amor que eu pensei ter enterrado. Ele apenas dormia, distante de mim. E, é verdade, meu bem domina o universo das conexões e faz seu mundo chegar ao meu, risonho, saudoso, alegre. A mesma alegria que tanto me podou, me diminuiu, me recolheu. Agora eu aqui, mais uma vez, amedrontada, trêmula, insegura como havia jurado não me permitir mais. É covardia do acaso me fazer falhar mais uma vez. É covardia do acaso invadir uma luta por findar pra berrar na minha cara que a estratégia é inútil, que é derrota sabida.

Eu amadureci. Mas amadureci pra ser amada. Pra viver de novo tudo que já passamos e poder corrigir as cagadas todas, entende? Mas o que passou não volta, e o meu aprendizado nunca vai mudar nada.

(desespero de ter perdido aquele amor novo que fostes um dia)

Tudo o que está por vir, ainda não veio. Não amadureci o suficiente, tão longe disso, pra encarar as velhas promessas, pra enfrentar a minha dor enferrujada, tirá-la do fundo do armário.

A gente não tem que aprender a lidar com tudo e se eu coloquei essa merda dessa frustração pra dentro da gaveta é porque não queria mais vê-la!!!!

Como assim? Pra onde foi a minha plenitude?? Porra, jogava conversa fora com ela há míseros minutos!! Não se esconde de mim, não... O acaso me paga.
A sincronicidade da vida, que responsabilizavas por tudo que é belo e inesperado, há de me pagar.

O pranto tão cantado da dor do amor molha o meu colo enquanto discorro por essas palavras. São minhas, me fincam, me são parte. Agora meu texto existe, está aqui diante de mim.

É um alívio enorme ter companhia.


Por Anita Petry

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Tic-tac-tic-tac...



Seis e vinte da tarde. Acabei de entrar em sala de aula e me acomodar na cadeira. A sensação de sentir meus músculos descontraírem um a um é quase orgásmica. É a primeira vez que me sento ao longo do dia... Passei as últimas seis horas ou mais ziguezagueando entre as cinquenta mesas do restaurante em que trabalho. Distribuindo sorrisos amarelos e esbanjando simpatia para quem nunca aprendeu a ser simpático (Pela simples razão de não precisar ser). Me esquivo de fazer qualquer esforço para entender a conversa que se desenrola a minha frente. Quero aproveitar esse momento. Sentir meu corpo relaxar e esquentar. Assistir meus dedos ganharem cor novamente... Sim, esfriou por aqui.Termômetros já marcam 32 graus Fahrenheit. O que isso significa? Experimente passar alguns minutos dentro de um congelador... Celsiusamente falando, zero grau. Nada mais, mas, muito provavelmente, menos. Questão de dias.
A chegada o inverno anunciada pelo Halloween reflete no astral das pessoas. No meu, principalmente. Me abstenho de fazer qualquer associação à data. Confesso não ser mística o suficiente para creditar uma sucessão de acontecimentos infelizes ao dia das bruxas. Mas não tenho como negar uma estranha coincidência. Será que deveria ter dado doces para aquelas crianças gordinhas de bochechas rosas que bateram na minha porta no último dia 31? Diz-se por aqui que o infeliz que não corresponde ao tal do trunk-or-treat está condenado à um ano sombrio e será atormentado por mortos-vivos nos próximos 12 meses. Sim, presentear as pequenas bruxas e franksteins com guloseimas variadas é a garantia de que sua alma será salva. E eu que pensei que não contribuir para a obesidade precoce dos americaninhos seria um bom negócio nessa história de pecados. Whatever. O fato é que simultaneamente aos ventos cortantes, uma crise familiar, uma intoxicação alimentar, quinhentos dólares debitados e não sacados e uma TPM sem precedentes tiraram a minha paz(ou algo parecido) nessa vida que palpita no meio da maior confusão da oitava avenida. Com todo o drama que me é peculiar, mergulhei num mar de questionamentos. E acuada pela opinião alheia, me tranquei em meu cubículo com vista para os fundos de um restaurante mexicano. Que sorte a minha. O dono deixou uma única árvore, já quase sem folhas, para me conectar, ainda de maneira imprópria, à energia da natureza. O sol não me alcança dali. Mas posso perceber sua coadjuvante presença nesses dias frios, quando me esforço para enxergar a copa do meu amigo eucalipto. Tenho coisas a fazer. Várias delas. Escrever e.mails, estudar, procurar um emprego mais excitante... Tenho que ligar para alguém? Provavelmente. Em vez disso, fico sonhando com as possibilidades. Taí. Virei prisioneira de tantas possibilidades. Ter muitos caminhos a escolher me paralisa. Essa imersão em meus pensamentos me atormentam. Olho ao meu redor. O tempo não passa. Um café. Café ajuda a passar o tempo. Outro ensinamento dos tempos corridos de redação.
Minha barriga roncou. Acabo de me lembrar que não coloquei nada no estômago além de diferentes sabores e variações de café...
“Do you have any questions?” Uma voz longínqua me força a aterrisar.
“None. This has been hopeful. Thank you”, respondi de sopetão.
Voltei. Oito e quarenta da noite. Acabou a aula. Preciso comer alguma coisa.

Cadija Tissiani